Bem-vindos ao meu Site

Através deste site apresento um pouco de minha tragetária pessoal e meu projeto "A cura do ser". Meus trabalhos de tradução e escritos pessoais.

"A cura do ser"

A experiência hesicasta dos monges do Antigo Oriente transposta para o nosso dia a dia.

 

"Verdades do Cotidiano"

 Reflexões sobre experiências cotidianas e suas consequências na vida.

 Mais um texto para refletir falando sobre a amizade (22/09/2010)

 

"O Périplo Austral"

 Uma jornada rumo a descoberta do ser interior. 

 Um novo capítulo editado - Capítulo VI
Capítulos I e II disponsíveis em PDF no TRABALHOS

 

 

 

O PÉRIPLO AUSTRAL

 

A história de uma viagem em busca do ser

 

 

Cap. I

     Eu corri com a maior rapidez possível. Reuni todas as forças dos músculos de minhas pernas e lancei-me para frente quase alçando vôo. É inacreditável como um ser humano sentindo sua vida em risco é capaz de adquirir capacidades além do que imaginaria. A distância que me separava de minha casa, meu abrigo, o lugar onde poderia sentir-me salvo e seguro, não era grande. Sugava todo o ar para dentro de meu peito e sentia-me flutuando levemente acima do pavimento de paralelepípedo da rua. Não ousava olhar para trás, não ousava sequer prestar atenção na respiração arfante do grande cão que me perseguia. Era o cão do visinho, sua fama de perigoso era conhecida por todos os moleques da vizinhança. Não consigo lembrar-me porque me arrisquei a entrar naquele quintal, mas já devia prever o resultado. Agora só restava fugir, fugir... Precisa  sobreviver, precisava chegar ao meu lugar seguro!

     Ainda é assim. Ainda hoje me lanço em lugares perigosos, em situações de risco, deixando as seguranças e arriscando-me para além de meus espaços. Por mais que não queria não sou capaz de resistir a esta força que me leva a desinstalar-me constantemente de minhas seguranças. Sendo assim, sinto-me ainda hoje sendo perseguido por aquele grande cão prestes a destroçar-me. Então corro... corro sem olhar para trás. E assim o ciclo se reinicia constantemente.

 

Cap. II

     Já havia passado dos trinta anos então. Bons anos passados dos trinta. Lembro-me que me sentava sob uma árvore de folhas esparsas e tronco retorcido como é bem comum nos lugares de vegetação de cerrado. O tempo estava seco, pois era inverno. O verde dos pastos, nas colinas do outro lado da estrada,  estava meio que amarelado, coberto da poeira que se erguia como consequência da passagem dos carros na tortuosa e estreita estrada de terra que passava logo adiante, do outro lado da cerca natural de pinheiros e eucaliptos que circundava minha “prisão”. Pequena estrada que conduzia à cidade, à liberdade!

     Sabia que havia me metido lá por escolha própria, por vontade própria. Mas, em muitas circunstancias, e são sempre assim as circunstâncias de minha vida, a vontade é vítima de imposições que afloram do coração doente, traumático.

    Nessas ocasiões, sentado lá, ficava olhando longamente aquela estrada horrorosa e concluía que precisava tomar aquele rumo, pegar aquele caminho e não olhar mais para trás e não voltar mais aquele lugar. Deixar tudo, por mais longo que tenham sido os anos que me conduziram até lá, por mais significativos que tenham sido e por mais que aquela atitude provocasse a sensação de derrota, perda e fracasso e, pior ainda, rompimento com todas as certezas interiores que conduziam minha vida e história até então.

      Mas não havia outra solução. Era preciso correr mais uma vez. Correr velozmente, como aquela criança de há muitos anos passados. Correr para fugir daquele cão feroz que punha minha garganta em risco novamente. Aquele lugar já não era mais o meu lugar seguro. Havia se transformado no quintal do vizinho onde vivia o cão feroz.

     Ergui-me de sob a árvore e preparei para correr, uma corrida tão violenta e que exigiria tanto quanto aquela de há muitos anos. Novamente era minha frágil vida que estava em jogo e não poderia nem sequer dar espaço a possibilidade daqueles dentes se cravarem em mim.

 

 

Cap. III

                Lá estava eu, jogado no sofá da sala de TV. As pernas curtas e mirradas de moleque de cinco anos com a pele toda arrepiada. Olhos fixos no teto, sempre marejados de lágrimas, trajando o uniforme de tergal, camisa branca e macacão curto com listras... meu nome bordado no peito. A comida consumida no almoço há pouco dava voltas violentas em meu estômago.  E aquela pressão sufocante no peito, aquela mão invisível apertando minha garganta! Como gostaria de conseguir esconder as lágrimas que assomavam constantemente. Como eram quentes e grossas ao escorrerem pelos cantos de meus olhos empapando o pescoço. Esfregava os dedinhos tão violentamente tentando enxugá-las que chegava a ferir a pele ao redor.

                Tal cena se repetiu diariamente por todo aquele primeiro ano letivo. Eram estas minhas disposições interiores enquanto aguardava meu pai para levar-me até o grupo escolar. As horas, o tempo, então, era meu maior inimigo, cada instante passado aproximava-me de meu martírio, de minha tortura, da hora da partida.

                Hoje compreendo que todo ser humano tem necessidade de algo que persegue por toda a vida, incessantemente. Eu sempre busquei algo que sei, hoje, ser o sentimento de segurança. Aos cinco anos minha segurança era meu lar, minha família. Qualquer outra realidade era perigosa e me amedrontava. A escola, outras crianças, a professora, as obrigações com o aprendizado... tudo representava um universo desconhecido e assustador. Ah, como gostaria que as pessoas, na época meus pais, compreendessem isto. Como gostaria que fossem complacentes com meus sentimentos e necessidades. Na verdade eu só queria ficar ali, protegido e longe de tudo. Eu só queria ficar ali com eles!

                Hoje percebo que seria impossível fazê-los compreender o que, então, eu sentia, pois nem mesmo eu era capaz de compreender tudo isto. Considero como sendo um verdadeiro milagre ter sobrevivido a tudo isto. O primeiro desafio de minha história foi excessivamente penoso e bem superior às minhas forças. Tenho que admitir, forçosamente, que não foi um germe de coragem - que poderia vir a ser desenvolvida no futuro - que levou-me a continuar sobrevivendo neste momento mas, tão somente, uma necessidade irresistível se suprir às expectativas de meus pais.

                Seria tão mais fácil se pudesse apenas ficar ali, na segurança de meu lar!

 

Cap. IV

                Finalmente consegui tomar o rumo desejado. Lá estava eu metido naquela estrada de terra serpenteando colinas e vales na direção da cidade mais próxima. De lá, viagem para um novo destino. Não só um novo destino, mas uma nova vida. A cada distância percorrida, deixava para trás uma história de quatorze anos, uma história até certo ponto segura, por maior que fossem as inseguranças. Na verdade minha segurança estava em estar com as pessoas que compunham meu universo, partilhar com elas dos mesmos desafios e trabalhos.

                Como explicar? Logo eu, uma pessoa tão dependente do sentimento de segurança que me perseguiu por toda vida ser capaz de lançar-me justamente num espaço de incertezas e inseguranças! O que acontecera com as raízes profundas que eu havia lançado naquela terra de minha história? Só existe uma explicação, o sofrimento e a angústia foram machado e serrote suficientes para cortar meu tronco e desembaraçar-me daquelas raízes extensas e profundas. Precisava fazer algo para aliviar-me daquele sufocamento, daquela opressão no peito, daquelas lágrimas. Mais uma vez teria que enfrentar aquele monstro assustador. Na verdade seria mais fácil permanecer ali, estirado naquele sofá, mas, como na época de minha infância, mais cedo ou mais tarde chegaria o momento de levantar-me e enfrentar o meu maior medo, a minha insegurança. Naquela época era meu pai quem me fazia assumir meu destino, mas, agora, quem iria forçar-me a levantar? A verdade é que, com o passar dos anos, fui aprendendo que não poderia deter-me diante do que provoca a insegurança, o medo.Com o passar dos anos fui aprendendo a levantar-me sozinho.  O desejo de alcançar tal segurança sempre era maior.

                Lá estava eu metido naquela estrada poeirenta, olhos fixos na vegetação cor sépia que era ofuscada pela refração da luz opaca do início da manhã,  pelas gotas de orvalho e pó misturados e grudados no vidro do carro.

                Seria tão mais fácil ter ficado ali, na segurança de minha vida... Mas eu seria feliz?

 

 

Cap. V

                 Lá estava eu metido novamente em meu lugar secreto. Esconder-me era uma arte, um dom. Nunca tive problemas para encontrar cantos e “buracos” para me meter e passar longas horas sonhando com uma existência diferente da que vivia. Medo e necessidade de segurança funcionavam como uma força poderosa compelindo-me para lugares secretos e distantes de tudo e de todos. Como minhas pernas eram pequenas e curtas e como a vastidão para além das esquinas de minha rua eram um universo imenso demais, utilizava destes pequenos espaços para criar minhas fugas mirabolantes e feitos heróicos, desconhecidos do cotidiano de minha criança acanhada e tímida. Então se alargava um universo de experiências nas quais eu era sempre forte, destemido...

                Fui aperfeiçoando-me neste trabalho de criar meu lugar secreto. Aos poucos foram tornando-se lugares e mais lugares! Como num misterioso labirinto, iam multiplicando-se salas interiores, becos e regaços obscuros na alma como um nautilus. Com o desenvolvimento da consciência infantil pude perceber que não precisava buscar somente espaços físicos para esconder-me, mas podia criá-los dentro de mim mesmo. Sendo assim, poderia caminhar pelas ruas, sentar-me em uma sala de aula ou estar cercado por pessoas e, mesmo assim, estar escondido e protegido. Cada vez mais me independi dos lugares secretos, dos cantos, dos espaços sob as camas e armários e tornei-me um arquiteto do imaginário, dos sonhos e ilusões. Se não conseguia mover-me livremente pelos universos materiais podia, pelo menos, correr fluidicamente pelos sonhos e planos íntimos.

                Eram estes, lugares intocáveis. Descobri então uma poderosa arma de sobrevivência. Meu mundo secreto. Sim, lá neste universo, ninguém poderia jamais alcançar-me e desvendar minhas fragilidades. Quanto mais a vida me impelia ao convívio social mais eu buscava o consolo deste meu espaço, deste meu mundo.

                Neste espaço eu poderia ser eu mesmo.

 

 

Cap. VI

                 Os últimos anos haviam me afastado do meu exercício cotidiano de esconder-me no recôndito mais profundo de meu ser. Fora obrigado a sair de mim mesmo com tamanha violência que, agora sentia certa dificuldade em encontrar novamente meus espaços interiores e refugiar-me para encontrar a paz e a segurança de que tanto necessitava naquele momento.

                Parado debaixo daquela marquise da pequena rodoviária que mais se assemelhava a um ponto de ônibus perdido em lugar nenhum eu aguardava a chegada do momento que iria dar término a uma longa e dolorosa etapa de minha história. Era aquele o ponto limite, era aquele o caminho sem volta. Se, no plano das coisas, não passava de uma viagem para não muito longe dali, no plano das idéias e dos sentimentos mais profundos era um desligamento total, uma catarse profunda, uma jornada transatlântica. Desligava o corpo daquele espaço acanhado de experiências que me atormentaram por tanto tempo e abria-me para uma nova realidade de possibilidades onde eu deveria ser dono de mim mesmo e fazer escolhas para o meu por vir. Nunca precisei tanto de refugiar-me como naquele instante. Estava tão só e, ao mesmo tempo, tão livre de tudo e de todos. Mas justamente destes “todos” que constituíram por tanto tempo os meus referenciais!  Mas onde estava meu mundo escondido?

                Ainda absorto neste turbilhão de idéias e pensamentos vi meu veículo aproximar-se e estacionar bem diante de mim. Como em um ato tão simples de galgar alguns degraus para o interior de um ônibus podem estar concentradas tantas forças e quanta energia emocional pode desprender-se sem que ninguém ao redor possa perceber! Mas não eram dois ou três degraus que eu escalava e sim uma enorme escada que me conduzia ao topo de uma altíssima montanha da qual poderia contemplar vastíssimo vale de possibilidades que eu tanto desejava.

                Parti e, aos poucos, fui buscando aquele silêncio, aquele distanciamento de tudo ao meu redor, era imperioso encontrar forças, era necessário reencontrar aquele espaço profundo dentro de mim mesmo.

                Foi então que algo maravilhoso aconteceu. No suave balançar do veículo, na cadencia ritmada imposta pelas curvas à medida que me afastava do meu passado pude aquietar a tempestade de sentimentos e sensações e encontrar novamente aquele espaço amplo e sonhar. Ele sempre estivera lá e o exercício de anos passados desenvolvera meus “músculos” interiores a ponto de ser capaz de, novamente, exercitar-me. Era o primeiro fruto da liberdade? De ser eu mesmo novamente? Podia agora sonhar como aquela criança que descansava em seu “país das maravilhas”. Lá não existiam medos, inseguranças ou falhas. Lá eu era o senhor soberano do reino... Comecei então a tecer meus sonhos, meus planos e, como hábil arquiteto, construir meu mundo.

                Finalmente podia ser eu mesmo novamente.