"A cura do ser"
I - Abordagem
Uma proposta de integração humana
Premissa: a maioria das pessoas visa estabelecer uma relação pessoal com o sagrado, quer o chamemos de Deus, de Força Motora, de Ser Superior, Energia Criadora, ou outros nomes dados ao Criador pelas diversas religiões. Esta é uma realidade e necessidade inerentes ao ser humano em sua dimensão antropológica e espiritual.
Problemática: o que podemos observar é que, quase sempre, estas pessoas não se sentem capazes de estabelecer esta relação pessoalmente e acabam se frustrando, sejam porque se sentem limitadas e incapazes ou porque se sentem bloqueadas. Como consequência tornam-se dependentes de constantes intermediações das instituições que administram o sagrado. Com isto não queremos negar o valor de tais instituições, mas, em muitos casos, a relação com o sagrado institucionalizada se estabelece somente no plano coletivo e não pessoal.
Motivo provável: os diversos processos – que chamaremos de “processos de desumanização” – aos quais a pessoa é submetida em sua história pessoal: traumas, desilusões, decepção com o sagrado provocadas por visões confusas a respeito do que venha a ser o sobrenatural e sua ação em suas vidas. Também o egoísmo, o egocentrismo e o hedonismo e uma inclinação a atitudes manipuladoras das forças espirituais. Estas são formas de descaracterização do ser que tendem a bloquear a relação com o que se define pessoalmente como o Bem, forma ágape de Amor, Deus. Outra realidade a ser considerada seriamente é o fato de que a relação com o sagrado não pode ser encarada de forma imediatista. Na era da internet e comunicações via satélite, quando nos plugamos com o mundo em questão de segundos, o homem sente-se impaciente diante da realidade espiritual que segue outra dinâmica de tempo.
Proposta deste trabalho: auxiliar tais pessoas, através de um processo de “cura do ser” compreendida como etapa inicial, essencial e necessária, a se capacitarem para realizar a atividade essencial da existência humana que, em muitas manifestações e expressões religiosas, podemos chamar de oração (instrumento por excelência como canal de relação com o sobrenatural) – sejam elas quais forem suas expressões concretas, mas que adquire uma dimensão muito mais profunda quando compreendida como participação da dinâmica espiritual. Nós nos referimos aqui a atividades que visam um processo de humanização, pois é humanizando-se que o homem se aproxima da compreensão de Deus.
Objetivo: preparar o ser, o indivíduo – a partir de uma visão holística e de integração – a transformar-se como que em um receptáluco livre dos obstáculos enumerados acima para acolher essa presença do espiritual ou divino em sua natureza humana. Em outros termos preparar a pessoa para relacionar-se com Deus.
Fundamentação teórica: desde a antiguidade pré-cristã homens e mulheres que viviam em comunidades próximas a cidade de Alexandria, no deserto do Egito, chamados “Terapeutas do Deserto” se preocuparam com este processo de cura do ser como etapa preparatória e necessária para uma saudável vida espiritual. Também os monges dos primórdios do cristianismo e até na atualidade, os monges ortodoxos hesicastas, no Monte Atos, Grécia aplicam técnicas parecidas para realizarem esse processo de “cura do ser”, baseadas na respiração pausada e cadenciada em unidade com os batimentos cardíacos e repetição de frases curtas e de profundo impacto espiritual associados a processos de observação de elementos da natureza e personalidades bíblicas.
Métodologia: na prática o processo consiste na observação de certos elementos da natureza e da própria realidade humana. Podemos, a partir desta observação atenta e da prática de certos princípios “curadores”, chegar a uma postura de abertura pessoal tal que permita o restabelecimento das potencialidades humanas – ou seja – de sua “rehumanização”. São quatro elementos – que doravante passaremos a chamar de arquétipos – a serem observados a partir de suas qualidades imanentes: a montanha, a flor (a flor do campo), o oceano, os pássaros (mais especificamente a rola ou pomba) e duas personalidades ou ícones religiosos: Abraão e o arquétipo de Amor representado em Cristo, em cuja pessoa se convergem todas as qualidades de todos os elementos anteriormente observados. A observação e a analise de tais princípios em tais elementos e pessoas, e de suas qualidades essenciais expressam-se objetivamente no método ao qual se unem o processo de observação e análise juntamente com a experiência religiosa contida em textos bíblicos.